.o valor do trabalho artesanal na moda e no consumo consciente
- Thays Denti Flores

- 19 de mar.
- 3 min de leitura
O trabalho invisível por trás de cada ponto.
No Brasil, ser artesã ainda é, muitas vezes, um ato de resistência. Em um mercado que valoriza a velocidade e a produção em escala, o trabalho manual caminha em outra direção: ele exige tempo, conhecimento técnico e dedicação. Ainda assim, é comum ouvir expressões como “é só um crochê”, uma frase que revela o quanto o trabalho artesanal segue sendo subestimado.
Por trás de uma peça feita à mão existe um processo que raramente é visível para quem olha apenas o resultado final. Antes de cada ponto existir, há a escolha da matéria-prima, o desenvolvimento da modelagem, testes, ajustes e, finalmente, o tempo dedicado à execução manual. Diferente da produção industrial, em que máquinas multiplicam peças em minutos, o trabalho artesanal acontece ponto a ponto, respeitando o tempo do fazer.
É nesse ponto que surge uma confusão comum entre valor e preço. O preço é apenas o número que aparece na etiqueta, enquanto o valor envolve tudo o que sustenta aquela peça: anos de aprendizado técnico, horas de trabalho manual, qualidade da matéria-prima, remuneração justa e um impacto ambiental geralmente menor. Comparar uma peça artesanal com um produto industrial produzido em larga escala é, na prática, comparar duas lógicas completamente diferentes de produção.
Essa desvalorização do manual também tem raízes culturais. Técnicas como crochê, tricô, bordado e costura fazem parte da história de muitas famílias brasileiras e foram transmitidas durante gerações, principalmente entre mulheres. Durante muito tempo, porém, esse conhecimento foi associado ao espaço doméstico e, por isso, pouco reconhecido como trabalho especializado. Na realidade, dominar essas técnicas exige prática, precisão e anos de experiência.
Essa reflexão ganha ainda mais relevância quando olhamos para o impacto ambiental da moda. Poucos dias atrás, celebramos o Dia Nacional da Conscientização sobre as Mudanças Climáticas e hoje, dia 19 de março, celebramos o Dia do Artesão. A indústria da moda está entre as que mais pressionam recursos naturais, impulsionada por ciclos de produção e consumo cada vez mais acelerados. Nesse contexto, o trabalho artesanal representa outra possibilidade de relação com o vestir.
A moda feita de forma manual tende a ser produzida em pequena escala, com maior atenção à durabilidade e à qualidade das matérias-primas. Em vez de acompanhar o ritmo descartável das tendências rápidas, ela propõe desacelerar e valorizar peças que permanecem por mais tempo no guarda-roupa. Apoiar o trabalho de artesãs, portanto, também é apoiar formas de produção mais conscientes e responsáveis com o planeta.
O fazer manual na th.
Na th., o trabalho artesanal não é apenas uma técnica de produção, mas o centro da forma como a marca entende a moda. As peças são desenvolvidas a partir de processos manuais como tricô, crochê, bordado e, em alguns casos, upcycling de materiais têxteis, valorizando o uso de resíduos de outras produções e matérias-primas de menor impacto ambiental.
Cada peça nasce de um processo cuidadoso que envolve pesquisa de modelagem, escolha dos materiais e muitas horas de execução manual. O tempo necessário para produzir uma única peça pode variar bastante dependendo da complexidade do ponto, da estrutura da modelagem e dos acabamentos, mas todas carregam algo em comum: o tempo humano dedicado à criação.
Além disso, a marca busca manter transparência sobre seus processos e escolhas, valorizando a produção local, o trabalho justo e a lógica do slow fashion. Em vez de seguir a lógica da produção acelerada, a proposta é criar peças duráveis, com identidade e com um ciclo de vida mais longo.
Celebrar o Dia do Artesão, portanto, também é reconhecer quem mantém vivas técnicas tradicionais e quem escolhe produzir moda de forma mais consciente. Em um mundo que insiste em acelerar tudo, valorizar o trabalho manual é uma maneira de lembrar que o tempo, o cuidado e o conhecimento ainda têm um lugar essencial na forma como criamos e nos vestimos.
Valorizar o trabalho artesanal começa com um gesto simples: olhar com mais atenção para aquilo que vestimos e para quem está por trás de cada peça. Quando escolhemos apoiar produções feitas de forma consciente, com tempo, técnica e respeito às pessoas e aos recursos do planeta, ajudamos a fortalecer uma cadeia de trabalho mais justa e a manter vivos saberes que atravessam gerações. Em um mundo que insiste na pressa, escolher o artesanal também é escolher desacelerar.
Thays Denti Flores
.fundadora da Th Ponto
.designer de moda, tricoteira, crocheteira e pesquisadora de práticas têxteis artesanais e sustentáveis
.cria peças autorais em tricô com foco em fibras naturais, produção local e baixo impacto ambiental

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