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.vestir-se de identidade

Atualizado: 13 de fev.



Muito antes da moda existir como sistema, com tendências, estações e consumo acelerado, a roupa era um marcador social, cultural e territorial. Vestir-se não era uma escolha estética isolada, mas um reflexo direto do lugar onde se vivia, dos recursos disponíveis e da história de um povo.


Em sociedades tradicionais, os materiais têxteis vinham do entorno: fibras vegetais, lã de animais locais, tingimentos naturais extraídos de plantas, raízes e minerais. Cada fio carregava o território. Cada técnica surgia da necessidade e da repetição ao longo do tempo, sendo transmitida entre gerações, principalmente entre mulheres.


O tricô e o crochê, por exemplo, nasceram da funcionalidade. Proteger do frio, reforçar roupas, prolongar a vida útil dos tecidos. Mas, com o tempo, os pontos passaram a assumir significados simbólicos. Em diversas culturas, padrões específicos indicavam região de origem, estado civil, função social ou pertencimento a um grupo. A roupa se tornava uma linguagem silenciosa.


Um exemplo emblemático são os padrões de tricô das Ilhas Aran, na Irlanda, onde cada família possuía desenhos próprios. Esses pontos eram tão identitários que permitiam reconhecer a origem de um pescador apenas pela malha que vestia. A técnica não era ornamento: era identidade, memória e sobrevivência.


Em muitas culturas indígenas, africanas e asiáticas, os têxteis sempre foram entendidos como extensão do corpo e da espiritualidade. Tecidos eram feitos para rituais, celebrações, ciclos da vida. O tempo do fazer era respeitado porque o processo tinha valor simbólico, não apenas utilitário.


Com a Revolução Industrial, no século XVIII, essa relação começou a se romper. A produção em massa desvinculou a roupa de seu território e de sua história. A padronização substituiu a singularidade. O vestir deixou de comunicar pertencimento e passou a atender a um sistema econômico baseado em velocidade, repetição e descarte.


A partir do século XX, a moda passou a ditar comportamentos, silhuetas e cores de forma globalizada. A identidade individual foi, muitas vezes, sufocada pela necessidade de acompanhar tendências. Vestir deixou de ser expressão e passou a ser adaptação.


Hoje, o retorno ao artesanal não é apenas estético, é cultural e político. Escolher peças feitas manualmente, com tempo e intenção, é resgatar a ideia de que a roupa pode voltar a ser uma extensão de quem somos. É romper com a lógica da uniformização e afirmar singularidade.


Na moda autoral e no slow fashion, vestir identidade significa reconhecer o valor da mão que faz, do tempo que constrói e da história que atravessa cada ponto. Significa entender que uma peça não começa no cabide, mas no fio, na técnica, na memória.


Vestir identidade é escolher pertencer a si mesma, e não a uma tendência passageira.



Thays Denti Flores

.fundadora da Th Ponto

.designer de moda, tricoteira, crocheteira e pesquisadora de práticas têxteis artesanais e sustentáveis

.cria peças autorais em tricô com foco em fibras naturais, produção local e baixo impacto ambiental

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